segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Será que eu estraguei?

Tirando o fato de que voltar a escrever já tá sendo um esforço pra lá de bem grande pra mim, a gente pode tentar falar sobre o que eu vim falar aqui. E também tirando o fato que uma idéia puxa outra, que puxa outra, que puxa outra, numa velocidade bem maior do que minha humilde cabecinha desmiolada pode dar conta de organizar e por em palavras.
Mas começando do começo, conhece a Aline? Aquela personagem louca, que tem dois namorados e que figurou uma série muito legal (na minha opinião) faz um tempo na Globo, enfim... nem eu conheço ela, sepá ela saiu de um quadrinho mas eu não faço ideia dessas informações técnicas e que me dariam certa credibilidade. Mas o que nos leva a ela é que eu estava re-assistindo um capítulo dessa série chuchuzinha no qual uma mulher louca diz que amor é uma formula matemática e que cada cara metade só tem uma cara metade, daí acontece um  monte de coisa no meio só pra entreter a gente e no final o óbvio triunfa: a Aline, nossa heroína!, deixa claro pra geral que amor não tem fórmula nenhuma e que tudo são flores, ah! e borboletas! e fadinhas brilhantes! no paraíso de perfeição do amor com gliter e purpurina. E o que me pegou nisso tudo foi que naquele discursinho final em que a cena vai passando em câmera lenta, os personagens riem, uma trilha gostosinha vai tocando baixinho, dando a sensação que tudo é lindo e aquele momento vai durar pra sempre, até o próximo episódio, a Aline disse assim: "e se você está saindo de um amor, pode ter certeza!, você vai se apaixonar de novo!"
Vai?
Eu não tenho tanta certeza assim. Quer dizer, é claro que eu tenho esperança nisso, mas foi como ela mesmo provou antes, esses lances de amor são um jogo sem regras! E eu quero deixar claro que quem vos diz isso já transcendeu aquele arquétipo do coração partido, agora figura muito mais como uma cientista social que põe em discussão que muito do que vivemos em amor foi construído por um tanto gigantesco de imagens e histórias midiáticas com as quais somos bombardeados todo santo dia e, convenhamos, nesse meio todo história de amor entre trancos e barrancos caminha para um final feliz.
As historias, sim. Mas, e as pessoas?
Todo mundo tá acostumado a ouvir e repetir "Tudo vai melhorar!", "Você vai se apaixonar de novo!", "A fila anda e a vida segue em frente!", "Depois da tempestade vem a calmaria, você vai ser feliz de novo!", independe se essas "verdades" consagradas vieram de comprovações científicas, ou seja, experiências próprias ou são uma crença, que pode nunca ter acontecido mas que pela força da repetição criam um imaginário fortíssimo e se tornam isso aí: parecem seres reais que se pode tocar com as mãos, se tornam mais uma das leis de compõem a trama que rege nossas vidinhas.
Ninguém nunca para pra pensar no que realmente significa e implica o que é repetido a exaustão a torto e a direito. Eu mesma, assim como você, já disse essas "verdades" pra amigos meus, porque naquele momento em que você não sabe o que falar é sempre mais fácil repetir uma forma pronta, quando a questão é muito difícil de pensar sobre e ponderar, discernir, a gente sempre cai na correnteza (ou permanece nela) do que sempre nos ensinaram sem nem percebermos, a gente acredita sem nem saber que acredita no "Tudo sempre dá certo no final".
Eu dos 12 aos 18, vivi uma fase muito fértil, me apaixonava e desapaixonava com facilidade e agilidade, me machucava e sarava, não virava cicatriz. Nesse período não me envolvi efetivamente com ninguém, confesso sofria de platonice crônica e achava que essa era a realidade do mundo, tive algumas desventuras que viraram experiências sem grande validade, guardadas no fundo da gaveta. E então com 18 eu me apaixonei!, de forma inexplicável, eu não conhecia o garoto nem tinha referências sobre ele, só o que eu sabia era aquele ser ali, agindo, falando, respirando, sendo, bem na minha frente.
A isso se seguiu muita história (e inúmeras decisões tomadas nesse fôlego novo): eu pedi ele em namoro, ele foi meu primeiro namorado (e até o presente momento, único), foi minha primeira vez, foi a primeira vez que eu gostava de alguém e tinha um relacionamento real com a pessoa, foi a primeira que vez que eu amava e era correspondida. Diante desse mundo muito novo pra mim eu acabei reagindo com bastante insegurança, tinha muito medo, você não imagina como, que ele terminasse comigo de repente. No fim quem fez isso fui eu, pra adiantar as coisas, sei lá...
Ficamos um período afastados mas depois nos reencontramos, a amizade tinha prevalecido afinal!, triunfante e cor de ouro, até a página dois somente. A gente voltou a ficar...
E esse período todo ficou marcado na minha vida como um tempo em que eu não me interessei por mais ninguém. Ninguém.
E foi conversando com uma colega de faculdade que chegamos, eu e você que lê, a pergunta do título: estávamos na lanchonete da faculdade e ela me apontou um cara que segundo ela é incrivelmente gato e arrasta consigo uma legião de meninas caidinhas por ele. Eu olhei o tipo e achei indiferente, comentei que fazia um tempo eu tinha perdido o interesse pela azaração e tals, foi quando ela respondeu: "Ihh... será que seu ex te estragou?!". Na hora eu fiquei meio em suspenso, ponderando o termo estragar sendo usado naquele contexto... Estragar? Mas que coisa pra se dizer... "Acho que não, só tô cansada disso tudo mesmo." E fiquei com a caraminhola a caraminholar.
O que me pesa é que eu já cansei de esperar pelo "Você vai se apaixonar de novo!" Eu já conheci vários caras novos, dos mais bonitos e incríveis, mas nada aconteceu. Eu já fiquei com outros seres, já transei com alguns deles e nem isso acendeu uma chamazinha que fosse pra esquentar meu coração, a minha esperança na tal "verdade" já tá caindo por terra e toda vez que alguém me repete ela, ou até eu mesma repito quase como uma oração, fica uma hesitação pairando, uma interrogação que vai jogando a esperança pra escanteio e me dando uma real. Talvez o "Você vai se apaixonar de novo!" seja uma grande ilusão e a sociedade toda tá sendo enganada mais uma vez , pra não perder o costume.
Ou então eu estraguei mesmo.
E foi impossível não estender esse "estragar" pra outros campos da minha vida logo que eu comecei a pensar nesse assunto todo. Faz um tempo tudo na minha vida tá decaindo: meu animo, minha alegria, minha certeza, minha vontade, minha inteligência, minhas qualidades... Eu não tô sendo depressiva, tô sendo realista. Qualé! A uns anos eu era um arraso, uma líder nata, cheia de amigos, expansiva, animada, inteligente, fazia e acontecia. Tinha certeza de tudo e quando algo não tava do meu gosto batia o pé e punha tudo na minha ordem. Eu era muito mais forte.
Hoje em dia tudo pra mim tá bom, se não tá eu me adapto mas não faço nenhum esforço pra mudar o que me incomoda, vou aceitando qualquer coisa, tudo serve, o que eu não vou é quem sabe gerar conflito dizendo minhas preferências. Não tenho vontade de mais nada.
Meu pai, que nem é a pessoa mais observadora, já disse "Não sei o que aconteceu com você! Você perdeu o brilho." Acho que eu estraguei, pai...
Nem meu sonho de "mudar o mundo através da educação", já não tenho mais essa pretensão, na real nem tenho mais vontade de me envolver com isso aí.

Não tenho certeza se eu estraguei, uma esperança ou outra ainda resta escondida por aqui, mas a preguiça... ah! a preguiça... ai que sono!... vou dormir.